O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma estar preparado para apoiar os países africanos mais expostos às consequências económicas do conflito no Médio Oriente. A escalada das tensões volta a pressionar os preços da energia, dos fertilizantes, do transporte marítimo e de outros bens essenciais para a actividade económica e segurança alimentar.
A posição foi assumida por Zeine Zeidane, novo director do Departamento de África do FMI, durante uma sessão com os media em Londres. Zeidane, que iniciou funções no início de Maio, supervisiona o relacionamento e as operações da instituição em 45 países da África Subsaariana. “A minha prioridade imediata é realmente ajudar os países da região a resistir a este choque”, afirmou o responsável, citado pela Reuters.
Energia, fertilizantes e transporte voltam a pressionar economias africanas
O Médio Oriente mantém um peso decisivo nas cadeias globais de fornecimento de energia, fertilizantes e transporte marítimo. Consequentemente, qualquer perturbação prolongada na região tende a afectar de forma rápida os preços internacionais do petróleo, gás, combustíveis refinados, fertilizantes e fretes.
Para a África Subsaariana, o impacto é particularmente sensível nas economias importadoras líquidas de combustíveis e bens alimentares. Adicionalmente, o aumento das facturas de importação pode pressionar a balança de pagamentos, enfraquecer moedas nacionais e elevar o custo de vida das famílias.
Os fertilizantes constituem uma preocupação adicional. O seu encarecimento pode elevar os custos de produção agrícola e reduzir a utilização por pequenos produtores. Num continente onde a agricultura continua a ser uma das principais fontes de emprego e rendimento, a transmissão do choque pode chegar rapidamente aos preços dos alimentos e à segurança alimentar.
Fundo acelera respostas para países mais expostos
Segundo Zeidane, o FMI já alcançou entendimentos a nível técnico para reforçar ou reprogramar o apoio disponibilizado a alguns países afectados. No Burkina Faso, o Fundo chegou a um acordo técnico para aumentar o acesso ao financiamento no âmbito da Facilidade de Crédito Alargado. Na Gâmbia, as autoridades solicitaram reforço do programa apoiado pelo FMI. Em São Tomé e Príncipe, o Fundo chegou igualmente a um entendimento técnico no âmbito da revisão do programa em vigor.
Adicionalmente, na Etiópia, foi acelerada a proposta de disponibilização de cerca de 200 milhões de dólares, com o objectivo de apoiar a resposta aos efeitos económicos do conflito. Contudo, estes entendimentos técnicos não equivalem automaticamente a desembolsos, dependendo da conclusão dos processos formais e da aprovação pelo Conselho Executivo do FMI.
Choque pode persistir durante vários meses
Zeidane alertou que as perturbações associadas ao conflito poderão prolongar-se por meses, mesmo que um cessar-fogo venha a manter-se. Segundo o responsável, países do Golfo indicaram que a retoma plena da produção e das exportações pode demorar entre seis e sete meses.
Consequentemente, esta perspectiva reforça a necessidade de os governos africanos prepararem respostas que vão além da gestão de uma volatilidade passageira. Para os países mais vulneráveis, a prioridade passará por proteger reservas internacionais, assegurar o abastecimento de bens essenciais e evitar que a resposta ao choque comprometa a sustentabilidade das contas públicas.
Crescimento africano entra sob maior pressão
As previsões do FMI apontavam para uma expansão de 4,3% da economia da África Subsaariana em 2026, depois de um crescimento estimado em 4,5% no ano anterior. A desaceleração prevista reflecte um contexto internacional menos favorável, marcado por incerteza geopolítica e custos de financiamento elevados.
O Fundo assinala que a média regional esconde realidades muito diferentes. Por um lado, países exportadores de petróleo podem beneficiar de preços mais altos do crude. Por outro lado, economias importadoras líquidas de energia, alimentos e fertilizantes tendem a enfrentar impactos mais severos sobre inflação, crescimento e contas externas.
“O próximo motor de crescimento do mundo”
Apesar das dificuldades imediatas, Zeidane transmitiu uma mensagem de confiança quanto ao futuro do continente. Na sua leitura, África mantém condições para se afirmar como uma das principais fontes de crescimento da economia mundial. “O futuro, o próximo motor de crescimento do mundo, será África”, afirmou.
A perspectiva assenta num conjunto de vantagens estruturais: uma população jovem, maior urbanização, recursos naturais e procura crescente por infra-estruturas e serviços. Contudo, a concretização dessa promessa dependerá da capacidade de transformar crescimento em emprego, rendimento e redução de vulnerabilidades. Para isso, o apoio financeiro externo poderá ser importante em períodos de choque, mas não substitui reformas nacionais que permitam elevar a produtividade e diversificar exportações.
Fonte: O Económico
