Terras raras: China domina num mercado que procura diversificação

Há uma disputa aberta no mercado global de terras raras. As estratégias de países e empresas reflectem uma preocupação crescente em assegurar o acesso a minérios que se tornaram essenciais, mas cujo fornecimento está estrangulado.

O mercado global entrou numa fase de crescimento sustentado, impulsionado por transformações estruturais na economia mundial. Segundo um estudo da consultora Mordor Intelligence, o sector deverá crescer a uma taxa média anual superior a 8%, passando de cerca de 10 mil milhões de dólares em 2024 para um intervalo entre 14 e 16 mil milhões até ao final da década. Adicionalmente, outras consultoras corroboram esta trajectória: a Grand View Research aponta para uma expansão ainda mais robusta, enquanto a Allied Market Research destaca o papel crítico das terras raras na electrificação dos transportes.

A procura cresce mais rápido do que a oferta

A Bloomberg NEF sublinha que a cadeia de minerais críticos será uma das mais pressionadas nas próximas duas décadas, à medida que a economia global acelera a descarbonização. Concretamente, cada avanço em mobilidade eléctrica, energias renováveis ou inteligência artificial reforça a procura por este tipo de recurso.

Contudo, se a procura cresce, a oferta continua marcada por constrangimentos estruturais. A cadeia de valor permanece altamente concentrada e tecnicamente exigente, com pontos críticos sobretudo nas fases de separação e refinação. Segundo dados de 2024 da US Geological Survey (USGS), embora existam reservas distribuídas por vários continentes, a capacidade de processamento continua fortemente centralizada. Adicionalmente, a Agência Internacional de Energia (EIA) alerta que os prazos de desenvolvimento de novos projectos mineiros podem ultrapassar uma década.

A arquitectura dominante da China

A liderança chinesa no mercado de terras raras não é um acaso geológico, mas sim resultado de uma estratégia industrial consistente ao longo de décadas. Segundo o USGS, a China continua a responder por cerca de 60% da produção global, mas a sua quota ultrapassa os 80% quando se trata de refinação. Consequentemente, este controlo permite-lhe exercer uma influência significativa sobre os preços e os fluxos comerciais.

Relatórios do Center for Strategic and International Studies (CSIS) destacam que Pequim utilizou historicamente este domínio como instrumento de política externa, nomeadamente durante as tensões comerciais com o Japão e os Estados Unidos. Empresas estatais como a China Northern Rare Earth e a China Minmetals consolidam este ecossistema, beneficiando de economias de escala difíceis de replicar no curto prazo.

A resposta dos EUA e da Europa

Face ao domínio chinês, os Estados Unidos e outros países têm intensificado esforços para reconstruir capacidades domésticas. A mina de Mountain Pass, na Califórnia, voltou a ganhar relevância estratégica, mas continua dependente de processamento externo, frequentemente na própria China. Adicionalmente, o Departamento de Defesa norte-americano tem apoiado iniciativas para garantir cadeias de abastecimento resilientes, especialmente para aplicações militares.

Na Europa, a aprovação do Critical Raw Materials Act marcou uma viragem na política industrial do bloco. Concretamente, este regulamento estabelece metas para que, até 2030, pelo menos 10% do consumo anual seja extraído dentro de fronteiras, 40% processado internamente e 15% provenha de reciclagem. A legislação também impõe limites à dependência de um único país fornecedor.

Novos pólos emergentes, incluindo África

Num mercado em reconfiguração, países como a Austrália e o Canadá surgem como alternativas credíveis à hegemonia chinesa. A australiana Lynas Rare Earths, por exemplo, consolidou-se como o maior produtor fora da China. Por sua vez, o Canadá aposta numa abordagem integrada, combinando exploração mineira com desenvolvimento tecnológico e padrões ambientais elevados.

Já em África, o potencial geológico começa a atrair atenção crescente. A Tanzânia e Madagáscar já avançaram com projectos relevantes, enquanto Moçambique surge no radar de investidores internacionais. Ainda numa fase inicial, o país poderia ter uma janela de oportunidade, embora sejam poucas as perspectivas de que consiga atrair investimento e desenvolvê-lo a curto prazo. Relatórios do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) sublinham que o continente pode desempenhar um papel crucial na diversificação da oferta global. Contudo, alertam para a necessidade de garantir valor acrescentado local, evitando repetir modelos extractivos do passado.

Um recurso cada vez mais geopolítico

A crescente centralidade das terras raras transformou-as num activo geopolítico de primeira ordem. Segundo a EIA, a concentração da oferta em poucos países aumenta o risco de disrupções, enquanto a crescente procura por tecnologias limpas intensifica a pressão sobre os recursos disponíveis. Consequentemente, este cenário tem levado a uma tendência de “nacionalismo de recursos”, com países a reforçarem o controlo sobre reservas e cadeias de abastecimento.

Ao mesmo tempo, acordos bilaterais e parcerias estratégicas multiplicam-se. O Japão, a Coreia do Sul e a União Europeia têm sido particularmente activos na diversificação de fornecedores.

Oportunidades e riscos para países emergentes

Apesar do entusiasmo, o mercado de terras raras permanece marcado por desafios estruturais. A complexidade tecnológica, os custos elevados e as preocupações ambientais continuam a limitar a expansão da oferta. Adicionalmente, a volatilidade de preços e a dependência de decisões políticas introduzem um nível adicional de incerteza.

Para países emergentes como Moçambique, o desafio será transformar o potencial geológico em desenvolvimento económico sustentável, evitando armadilhas de dependência e captura de valor externo. Num mundo em permanente transição, o controlo destas cadeias poderá determinar vantagens competitivas e a capacidade de influenciar o rumo da economia global.


Fonte: Diário Económico (Texto: Celso Chambisso)

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